OPINIÃO PESSOAL

            Por razões bastante abrangentes, fui e sou favorável à ideia e à implantação do Ministério da Defesa.

              Acredito que a função de Ministro Militar obrigava os nomeados a condicionarem suas atitudes, posturas e posições de forma eqüidistante de três papéis exercidos simultânea e obrigatoriamente: o de “Membros do Governo”, escolhidos pelo Presidente para integrar um Ministério, portanto, comprometidos com as políticas e posturas do Governo; o de “Comandantes das Forças”, pois que exerciam os mais altos cargos na hierarquia militar e, portanto, eram responsáveis por tudo que acontecia ou deixava de acontecer no âmbito das Forças; e, por último, mas não menos importante, o de “Representantes da Família Militar” perante as autoridades constituídas, já que, sabiamente, ao militar é vetado o sindicalismo.

         A eqüidistância entre estes papéis era, sem dúvidas, muito difícil e exigia-lhes muito engenho e arte para conseguir.

            Entendo que, com a criação do MD e a extinção dos Ministérios Militares, os atuais Comandantes obrigam-se ao exercício de apenas dois papéis: Comandantes de Força e Representantes da Família Militar

            O descompromisso com os planos e promessas de governo, pois que dele não são membros, criou para os Comandantes liberdade e espaço para agir em benefício exclusivo dos interesses das Forças como instrumentos de defesa da Pátria e de garantia da lei e da ordem, conforme e explicitamente consta da nossa Constituição Federal, independente dos interesses políticos do partido ou partidos no governo. Cabe a eles, assessorados pelos respectivos Altos Comandos, como servidores do mais alto nível do Estado brasileiro, salvo outro juízo, estarem atentos a todos os atos e fatos que, ocorridos dentro e fora do território nacional, venham a interferir, de qualquer forma, no cumprimento da Missão Constitucional e, independente do interesse ou da postura tomada pelo governo, posicionar-se perante a Nação através do Ministro da Defesa, de forma democrática, com isenção, honestidade, lealdade, franqueza e profissionalismo, tendo sempre como farol e respaldo a Missão Constitucional!

            Da mesma maneira devem agir como Representantes da Família Militar, que neles confia por força de compromisso, formação e crédito irrestrito nos princípios que universalmente compõem o arcabouço das virtudes do soldado. Neles a Família Militar deposita todos os seus anseios e expectativas, com a certeza de que os conhecem e que com eles estão identificados, porque são legítimos membros desta Família que nada pede além de dignidade. Dos Comandantes, neste papel, não é exigido mais do que o risco de indispor-se perante os governantes pela intransigente, franca e transparente defesa da dignidade de seus familiares.

         Acredito que da tomada destas atitudes depende o bom desempenho dos Comandantes das Forças, após o advento do MD. No entanto, de onde estou e até onde posso ver, encontro as Forças como os melhores alunos de uma classe, que, mesmo capazes, não se impõem. Permanecem os melhores da turma, mas, por timidez, não se expõem, só assumem os riscos que lhes são impostos.

         Como conseqüência, ouvi há algum tempo, comentários de um General tratando como natural e necessário o movimento de mulheres de militares que acamparam na Esplanada dos Ministérios. Constatei, pela natureza dos comentários, estarem elas assumindo, legítima e eficazmente, segundo ele, um papel que, no meu entendimento, pertence aos chefes militares.

         Constatei, também, que esse movimento, que, infelizmente, representa a falta de confiança na liderança e na eficácia da ação intransigente, franca e transparente dos comandantes (vide o “Monge e o Executivo”), deixa de ser um desvio de comportamento para ser entendido como uma lídima, eficiente e natural atitude de autodefesa da Família Militar, identificada com a doutrina do Partido do atual Governo!

Estou, portanto, convencido de que não só os militares e suas famílias, mas a Nação como um todo e, em particular, os brasileiros mais esclarecidos aguardam dos Comandos das Forças Armadas um posicionamento claro e ostensivo, não apenas quanto ao que lhes tem sido solicitado pelo Governo ou pela circunstância, mas, particularmente, quanto ao que por conveniência da convivência tem sido motivo de silêncio ou inação. O Brasil precisa e quer saber quais são as posições e as opiniões de seus soldados sobre todos os assuntos que lhes são afetos pela Constituição Federal, posições e opiniões estas que, por serem isentas de vieses políticos ou ideológicos, servirão de base sólida para que a Sociedade possa democraticamente polemizar e discuti-los, em busca do que, pela vontade esclarecida da maioria, é entendido como o melhor para os destinos da Pátria.

         Infelizmente, entendo que, se as Forças Armadas continuarem silenciosas em relação aos atos e fatos que interferem em sua missão constitucional, ocorridos interna ou externamente, mantendo-se, por inação, coniventes com os projetos de poder do governo da ocasião, elas verão surgir, rapidamente, a cizânia e a quebra da coesão entre seus quadros e se transformarão, como as Polícias Militares Estaduais, em milícias manipuladas pelo interesse corrupto dos políticos, mal equipadas, despreparadas e, principalmente, mais preocupadas em sobreviver do que em servir!

         Considero que a omissão é a mais destrutiva das atitudes de um soldado, e que será tanto mais destrutiva quanto mais alto é seu posto ou graduação. Quando na ativa, sempre me preocupei em não sê-lo e, em duas oportunidades, entreguei a meus chefes documentos com conteúdo semelhante a este. Hoje, em reserva, valho-me deste e de outros canais, para continuar a construir com a minha opinião.

Gen Bda Paulo Chagas

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10 respostas para OPINIÃO PESSOAL

  1. Victor disse:

    Antiguidade é posto!
    Aos oficiais generais e comandantes de Forças, basta uma ordem e estaremos prontos.
    “Semper Fidelis”

  2. Aparecida Donizeti de Oliveira disse:

    Muito obrigada por externar sua opinião ,que tanto respeito, a nós brasileiros.Que sua voz tenha eco,senhor!

  3. Francisco Machado disse:

    General,
    Parabéns por sua “Opinião Pessoal”.
    Parece que concordamos no ponto em que o “silêncio eloquente” das Forças Armadas, diante dos descalabros que ocorrem na política brasileira, mais do que preocupante, representa um grave risco de “cizânia e a quebra da coesão entre seus quadros”, como bem colocado em seu texto, com consequências imprevisíveis e desastrosas para a sociedade.

    Peço licença para publicar o seu texto em minha página no “face book”.

  4. Denise Marti disse:

    Precisamos de mais Generais como o Senhor na ativa!!!
    Espero que este texto maravilhoso chegue aos da ativa e os motive a acolher o povo e atender seus pedidos!

  5. Davi Mello disse:

    Excelente texto, General.

    Infelizmente o silêncio das Forças Armadas sobre tudo que está acontecendo no nosso contexto político, incomoda. Vejo a necessidade de homens com a sua coragem, que não temem expor pensamentos. Estamos em degradação, marchando ao fundo do poço, e estar em silêncio sobre a atual situação, nos faz pensar em conivência. Espero estar errado e espero ainda que possamos reverter a degradação constitucional.
    Parabéns pelo blog!

  6. stanislau bobowski disse:

    General por esta e outras que aprendi a respeitá-lo e passei a admirar cada vez mais a sua análise cirúrgica e precisa do difícil momento que atravessamos. Que Deus o abençoe e lhe dê forças para continuar a sua jornada……

    • stanislau bobowski disse:

      Complementando, deixo o manifesto do Capitão Eugênio Melo que de certa forma comprova o estado de espírito e de revolta que começa a reinar no país, não o conheço, apenas ví o link na internet….

      • Nelson Montagna disse:

        Sr.Paulo Chagas,como civil já dei meu basta a muito tempo e todas a noites com meus pensamentos me pergunto:O que mais essa corja ainda sera capaz de fazer?Se fardado e no comando já estaria em marcha acelerada!O povo já pede por isso.
        Guardadas as dimensões temporais o momento ,pela pluralidade de flancos e complexidade que estão colocando em risco a soberania do nosso País.Ainda não digeri,entendi,se a nomeação do MD é um acinte ou escarnio com os Comandantes de Força e a Família Militar.! O Sr.consegue me explicar?
        No mais, quero com toda minha fé acreditar que sua opinião seja um eco,alto e forte,vindo daqueles que alinhados,são a última esperança de salvação desta Nação que já está ferida.

        Que Deus ilumine nossa marcha.

        Respeitosamente,

        Nelson Montagna

  7. Prentice franco disse:

    Opinião de seus subordinados.
    https://www.facebook.com/prentice.franco

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