Ao meu amigo Gen Villas Bôas, uma lição do acaso!

Caros amigos

Há muito não me permito acreditar no acaso. Não por que ele não exista, mas porque não lhe dou o crédito simplista de acidente, contingência ou casualidade, já que traz consigo, sempre, um ensinamento, uma informação ou, até mesmo, uma centelha para a meditação.

Foi assim que um “Bom Dia”!, dito no refeitório de um hotel de estrada, colocou-me em contato com o advogado Luiz Carlos Lopes Moreira, professor, ex candidato a governador do Rio Grande do Sul, oficial R2 de Cavalaria e criador de cavalos Árabes.

Mantivemos rápida, mas boa e simpática conversa sobre coisas comuns às nossas vidas, embora nunca antes nos tenhamos encontrado.

Finalizamos a prosa com uma troca de direções e com a sua gentileza de brindar-me com um livro de sua autoria, no qual consta sua proposta de governo para o estado gaúcho.

Luiz Carlos emoldurou a gentileza com o comentário de que iniciara mal sua campanha ao colocar a “boa política, a transparência e a ética” como os três primeiros parâmetros de sua proposta, afastando, assim, grande parte do apoio que julgava necessário e comprometido com a gestão da coisa pública. Nada de novo ou de extraordinário no Brasil da era pós-moral!

Reiniciando minha viagem, passei a ler a proposta do meu novo amigo para o honroso cargo de Governador dos Gaúchos.

Foi aí, exatamente à folha 8, que encontrei a negação do acaso, ao deparar-me com uma citação à qual, provavelmente, nunca teria acesso. Tratava-se de um trecho do livro “Diário de um Mago”, de Paulo Coelho, que transcrevo:

“O homem nunca pode parar de sonhar; o sonho é o alimento da alma, como a comida é o alimento do corpo. Muitas vezes, em nossa existência, vemos nossos sonhos desfeitos e nossos desejos frustrados, mas é preciso continuar sonhando, senão nossa alma morre.

O bom combate é aquele que travamos a pedido de nosso coração. É aquele que travamos em nome de nossos sonhos. E nós matamos nossos sonhos porque temos medo de combater o bom combate.

O primeiro sintoma de que estamos matando nossos sonhos é a falta de tempo. Aliás, as pessoas mais ocupadas são as que têm sempre tempo para tudo… (…) na verdade, elas tinham medo de combater o bom combate.

O segundo sintoma da morte de nossos sonhos são nossas certezas. Porque não queremos aceitar a vida como uma grande aventura a ser vivida, passamos a nos julgar sábios, justos e corretos no pouco que pedimos da existência. Olhamos para além das muralhas do nosso dia-dia, ouvimos o ruído de lanças que se quebram, o cheiro de suor e de pólvora, as grandes quedas e os olhares sedentos de conquista dos guerreiros. Mas nunca percebemos a alegria, a imensa alegria que está no coração de quem está lutando, porque para estes não importa nem a vitória nem a derrota, importa apenas combater o bom combate.

Finalmente, o terceiro sintoma da morte de nossos sonhos é a Paz. A vida passa a ser uma tarde de Domingo, sem nos pedir grandes coisas, e sem exigir mais do que queremos dar. Achamos então que estamos maduros, deixamos de lado as fantasias da infância, e conseguimos nossa realização pessoal e profissional. Mas na verdade, no íntimo de nosso coração, sabemos que o que aconteceu foi que renunciamos à luta por nossos sonhos, a combater o bom combate.

Certa vez um poeta disse que nenhum homem é uma ilha. Para combater o bom combate, precisamos de ajuda. Precisamos de amigos e, quando os amigos não estão por perto, temos que transformar a solidão em nossa principal arma. Tudo o que nos cerca precisa nos ajudar a dar os passos de que precisamos em direção ao nosso objetivo. Tudo tem que ser uma manifestação de nossa vontade de vencer o bom combate. Sem isso, sem percebermos que precisamos de todos e de tudo, seremos guerreiros arrogantes. E nossa arrogância nos derrotará no final, porque vamos estar de tal modo seguros de nós mesmos, que não vamos perceber as armadilhas do campo de batalha”. (Os grifos são meus)

Ao perceber a “lição do acaso”, lembrei-me de imediato do desafio que se impõe ao nosso futuro Comandante do Exército, meu amigo Gen Ex Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, após os 12 anos em que a Força, disciplinadamente, tem aguardado uma mudança de atitude, já que, sem perceber, os Chefes que o antecederam não se deram conta de que, para que o combate que travaram fosse “o bom combate”, precisavam “de todos e de tudo”!

Sem querer e sem efetivamente sê-lo, tornaram-se “arrogantes” e, desapercebidamente, foram vítimas das “armadilhas do campo de batalha”.

Caro amigo Villas Bôas, compartilhando contigo a oportunidade do acaso, desejo-te sucesso e que continues a não temer o bom combate, que não permitas a morte de tua alma e que a alimentes com o mesmo sonho que fez com que nossos pais e os grandes Chefes Militares que com eles ombrearam arriscassem suas vidas e suas carreiras e, assim, nos legassem a democracia que hoje desfrutamos ao lado dos que contra ela nunca deixam de conspirar.

Desejo que teu coração se encha da alegria de quem ousa lutar pelo que sabe que é certo, que aceites o desafio, não da aventura, mas do risco inerente ao bom combate!

Desejo que nunca renuncies à luta por tuas convicções, que não te deixes violentar por promessas efêmeras ou pela falsidade castradora dos afagos dos hipócritas que estremecem só de pensar no “rugido do leão”(*) ou na “cólera das legiões”!

Desejo que nunca te permitas dispensar a ajuda dos amigos, do teu Alto Comando e de tudo e todos que querem e podem estar contigo. Que não percas a confiança nos que verdadeiramente querem o teu sucesso, porque dele depende o sucesso do Exército. E, finalmente, que a humildade que te define como um grande líder militar continue a manter à distância a arrogância que, além de deixar-te só, te cegará para as armadilhas que os falsários da verdade colocarão em teu caminho!

Com sinceridade e especial apreço,

Paulo Chagas

(*) A Fábula, de Jacornélio M. Gonzaga.

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8 respostas para Ao meu amigo Gen Villas Bôas, uma lição do acaso!

  1. Pedro disse:

    General, uma dúvida, por exemplo: Se hoje acontecer uma 3ª guerra mundial, o Brasil estaria do lado de Rússia, China, Coreia do Norte, Irã, Venezuela, Cuba e outros países da América do Sul, ou estaria do lado dos EUA e União Europeia (28 países), ou ainda, de forma neutra?

    Sendo mais criterioso na pergunta, as nossas Forças Armadas, obedeceriam as ordens do PT e lutariam do lado comunista ou manteria sua autoridade e não desrespeitariam sua honra?

  2. Aparecida Donizeti de Oliveira disse:

    Uau! Muito bom, general Paulo Chagas! Já estava sentindo falta dos seus textos!Grande abraço,senhor!

  3. Gisa Tavares disse:

    Bom dia General,

    Belíssimo texto!
    Reflete muito bem as esperanças que depositamos no novo Comandante do Exército.
    Peço sua permissão para compartilhá-lo.

  4. Tana Pereira disse:

    General, mais uma vez, parabéns por em tão belas e fortes palavras, mostrar que o Bom Combate está em nossa vontade intrínseca e não, na vontade de outrem, alheio à nossa formação ética e moral!
    Um abraço

  5. Maria Goretti Torres disse:

    Prezado General Paulo Chagas, caríssimo irmão em Cristo Jesus,

    A Paz de Jesus e o Amor de Maria!
    Gosto, sempre, de seus textos. Parabéns!
    Porém, permita-me divergir um pouquinho daquele trecho do livro de Paulo Coelho (realmente não sou adepta dos livros dele): o verdadeiro alimento da Alma é a fé, e aquele que tem fé, NUNCA tem medo de combater o bom combate!
    Que Deus o abençoe em profusão!
    Abraços fraternos,

    Goretti.

    • Você tem razão, Goretti. Eu também não sou fã dos livros do Paulo Coelho. Já tentei ler alguns de seus livros, mas acabo desistindo porque os acho enfadonhos, daí o acaso, pois, de outra forma, não chegaria ao texto.
      Que Deus a abençoe também!

  6. Aparecida Donizeti de Oliveira disse:

    Bom fim de semana,General! Muita paz! Também não sou fã do Paulo Coelho,pelo menos,não concordo com tudo que ele escreve e acho isso saudável e natural.Porém, compreendo que a FÉ alimenta nossas almas para sonharmos e realizarmos…boas obras,nossa renovação espiritual(um pouquinho a cada dia),procurarmos fazer a caridade em pequeninas coisas,dentro do nosso lar primeiro,junto a nossos amigos,junto ao nosso país afinal.Se uma pessoa não sonha,por exemplo com um Brasil,com um mundo melhor,não enxerga motivos para o bom combate.Acredito em FÉ COM OBRAS! O nosso novo Comandante do Exército tem em suas mãos(assim com os Comandantes das outras Forças) uma oportunidade e missão do tamanho da crise ,da preocupação,do desespero mesmo de muitos,muitos brasileiros.Sinceramente,tomara ter sido influenciada pela minha apreensão acerca do futuro do Brasil, me senti desrespeitada quando ele comentou sobre os e-mails que recebe,o jeito que disse isso com as gargalhadas dos presentes.O assunto é delicado demais! Também entendo o que ele diz sobre “tutela da sociedade”.No entanto, ele deve saber que mais(com certeza) da metade da população votou contra o pt e que fizeram um trabalho durante décadas para o povo acreditar em histórias mentirosas,distorcidas ou caluniosas.Oras,não seria essa “CNV” uma oportunidade de os militares esclarecerem o povo?
    Abraço,senhor!

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